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Seguimento via Satélite

Resultados preliminares (Maio de 2003 – Dezembro 2004)

 

Comparação entre indivíduos de Águia-real

A análise dos processos de selecção de habitat e interacções com a rede eléctrica carece de uma análise mais detalhada, sendo necessário recorrer à consulta de informação geográfica de maior precisão e utilizar ferramentas estatísticas apropriadas.
Em relação aos aspectos comportamentais das águias-reais marcadas neste estudo, torna-se já possível adiantar algumas indicações gerais, nomeadamente em termos comparativos:

Águia de Bonelli
Águia de Bonelli
(Foto João Cosme)

- ambas aves (Pólo e Electrão) demonstraram ao longo de todo o seguimento uma tendência de regresso doa zona de origem, o que poderá indicar um forte comportamento filopátrico;
- ambas aves (Pólo e Electrão) manifestam preferência pela utilização de encostas escarpadas, tranquilas em termos de presença humana e ocupadas por outras aves rupícolas, nomeadamente águias-reais, como locais de pernoita aquando das deslocações ao Douro Internacional e afluentes;
- a ave Faísca teve um período de emancipação mais curto que as outras duas aves, realizando um movimento de grande distância numa fase inicial do período de dispersão, podendo este comportamento ter sido responsável pela sua provável morte algures na costa asturiana;

 

- a ave Pólo teve uma emancipação mais tardia que as duas outras aves tendo permanecido com os seus progenitores durante quase todo o Inverno de 2003/2004, contrariamente ao esperado e relatado noutros estudos desta espécie;
- a ave Pólo apresentou uma tendência para percorrer, frequentemente, grandes distâncias e permanecer grandes períodos de tempo fora da sua área de nascimento;
- a ave Electrão permaneceu a maior parte do tempo de seguimento numa área de dispersão localizada no Douro vinhateiro, a qual serviu de ponto de partida e regresso para alguns movimentos mais ou menos longos a áreas ocupadas por outros casais e/ou com características ecológicas semelhantes às da sua zona de nascimento;

Águia-real
Águia-real

- a ave Electrão frequentou paisagens mais humanizadas, podendo-se considerar que o seu processo de dispersão envolveu maior vulnerabilidade face aos factores de ameaça;
- a ave Pólo realizou os seus movimentos de dispersão sobretudo em zonas de aproveitamento agro-pecuário extensivo, nomeadamente em grandes propriedades da zona centro e sul da província de Salamanca (e também da raia portuguesa), com extensos montados de azinho, alternando com zonas de matos e pastagens. Essa estrutura ecológica proporciona elevados níveis de biodiversidade, assim como uma grande disponibilidade de presas, constituindo áreas de concentração de numerosas aves de rapina (quer durante o período estival quer durante o período invernal);

- essas diferentes tendências no padrão de dispersão reflectem-se em diferentes preferências na ocupação o território geográfico, de facto a ave Pólo seleccionou quase exclusivamente território espanhol enquanto que a ave Electrão seleccionou quase exclusivamente território nacional;
- ambas aves mantiveram-se quase exclusivamente na Bacia Hidrográfica do Douro.

 

Áreas de prospecção comuns


Áreas de prospecção comuns por parte das águias reais Pólo e Electrão, durante o período final do estudo.

 

 

Pólo

Faísca

Electrão

SENSORES

 

 

 

- Carga da bateria

normal

funcionou deficientemente

normal

- Temperatura do PTT

normal

normal

normal

- Actividade (movimento)

normal

normal

normal

- altitude

normal

normal

normal

- velocidade

normal

normal

normal

- orientação do PTT

normal

normal

normal

- Localização geográfica

normal

normal

normal

RESULTADOS

 

 

 

Nº total de dias de seguimento

579

153

579

Nº total de Localizações

2200

72

4300

Nº médio diário de localizações

3,8

0,47

7,4

% de registos sem qualidade

19,9 %

68%

14%

Altitude média

713 m

542 m

414 m

Altitude máxima

1899 m

1867 m

1803 m

Altitude mínima

122 m

177 m

47 m

Deslocações (total)

4619 Km

325 Km

5029 Km

Resumo da informação sobre diversos parâmetros do seguimento via satélite de 3 juvenis de Águia-real

 

Comparação entre indivíduos de Águia de Bonelli

Os resultados do seguimento dos movimentos destas duas aves expressam o processo de dispersão típico de juvenis desta espécie, bastante diferente do detectado nas águias-reais. Ambas as aves marcadas efectuaram um movimento de dispersão principal muito semelhante em termos de data de início e percurso realizado, que poderá ter sido originado por condições meteorológicas propícias à sua deslocação. Na zona de dispersão comum, as aves pareceram seleccionar zonas com características ecológicas muito semelhantes, nomeadamente zonas da baixa montanha próximas à costa atlântica. Chegaram mesmo a utilizar poisos e locais de pernoita situados numa mesma zona.


 

Luz

Neutro

SENSORES

 

 

- Carga da bateria

normal

Apresentou deficiências

- Temperatura do PTT

normal

normal

- Actividade (movimento)

normal

normal

- altitude

normal

normal

- velocidade

normal

normal

- orientação do PTT

normal

normal

- Localização geográfica

normal

normal

RESULTADOS

 

 

Nº total de dias de seguimento

92

184

Nº total de Localizações

382

490

Nº médio diário de localizações

4,15

2,7

% de registos sem qualidade

26%

52,5 %

Altitude média

467 m

368 m

Altitude máxima

1265 m

1431 m

Altitude mínima

105 m

3 m

Deslocações (total)

699 Km

1938 Km

Resumo da informação sobre diversos parâmetros do seguimento via satélite de 2 juvenis de Águia de Bonelli..

 

Interessa salientar que a conjugação de um processo de emancipação bastante rápido, a dispersão para zonas muito humanizadas e aparentemente com condições ecológicas bastante distintas das do local de origem (completamente fora da área de distribuição da espécie), poderão contribuir para explicar a provável razão do desaparecimento deste dois indivíduos. Desta mesma forma, este poderão também ser factores que presentemente condicionem a elevada vulnerabilidade em que se encontra a população do nordeste de Portugal, e inclusivamente poderem ser responsáveis pela baixa taxa de incorporação de adultos observada a nível da população reprodutora (no Parque Natural do Douro Internacional, 40% dos casais são compostos por pelo menos 1 ave imatura).

 

 Luz - Agosto 2004 Neutro - Agosto 2004

 

Deslocações de Aves
Deslocações das aves: Luz (pontos e linha rosa) e Neutro (pontos e linha brancos). A partir de dia 26/08/04 (os números assinalam os primeiros 6 locais de pernoita de cada uma das aves).


Considerações finais

A primeira fase deste estudo (18 meses entre Maio de 2003 e dezembro de 2004) correspondeu a um período de experimentação e ensaio dos processos de seguimento e podemos considerar que foram obtidos resultados bastante positivos em termos de validação dos métodos utilizados. Os dados obtidos ao longo deste estudo permitiram desde já retirar algumas ilações que se passam a destacar:

 

  • referentes aos aspectos metodológicos

- o equipamento tecnológico utilizado permitiu obter um volume extraordinário de informação, único no estudo destas espécies. A obtenção de informação depende muito da actividade da ave e das condições climatéricas.

- a maior limitação metodológica detectada corresponde ao abaixamento drástico de registos GPS nos períodos de instabilidade meteorológica e durante o Inverno. A incapacidade desse equipamento em adquirir carga poderá ser uma das causas da eventual falha técnica detectada no caso das águias Faísca e Neutro.

 

  • referentes ao conhecimento da biologia das espécies

- no caso das águias-reais, a fase de emancipação prolongou-se durante os meses de Inverno, provavelmente porque os recursos alimentares durante esse período são mais escassos, e deste modo a dependência dos progenitores poderá ajudar a ultrapassar essas dificuldades;

- os juvenis de águia de Bonelli apresentam um período de dependência dos adultos mais curto que as águias reais, e esta característica poderá ser um dos factores determinantes na elevada taxa de mortalidade durante a fase de dispersão;

- após a realização de movimentos de maior extensão, provavelmente erráticos, as aves regressaram sistematicamente a zonas próximas do seu local de nidificação, que pode ser um sinal da filopatria (tendência para nidificar na área de origem) muito evidente neste grupo de aves;

- existem variações de comportamento entre os indivíduos marcados (período de emancipação, tipo de movimentos, velocidade, altitude dos voos, habitats seleccionados), que só poderão ser comprovadas com uma amostra maior de animais marcados e com futuras análises estatísticas adequadas;

 

  • referentes aos aspectos de selecção de habitat

- as aves utilizaram regularmente os vales dos principais rios para efectuar movimentos de prospecção de novas áreas de instalação;

- as aves visitaram muitas vezes locais de nidificação de outros casais desta e de outras espécies o que pode representar uma tendência para a procura regular de zonas de assentamento com condições ecológicas semelhantes às do seu local de origem;

- as aves parecem ter escolhido como locais de assentamento juvenil e/ou pernoita, zonas semelhantes aos locais de nidificação donde são originárias, ou seja encostas declivosas com presença de afloramentos rochosos;

 

  • referentes à conservação destas espécies

- os movimentos das aves durante os primeiros meses, nos quais estão fortemente dependentes dos progenitores, realizaram-se em áreas próximas ao local de nidificação devendo situar-se no interior dos domínios vitais dos respectivos casais de progenitores (esta informação, ainda que provisória, é um importante contributo para o ordenamento e gestão das áreas classificadas, nomeadamente das ZPEs);

- foi possível observar que ambas espécies utilizam com alguma frequência os sistemas montanhosos localizados nas regiões mais próximas ao local de nascimento. Nomeadamente no caso das águias reais, estas frequentam diversas áreas classificadas, provavelmente pelas maiores disponibilidades ecológicas, em habitat e espécies-presa, existentes nessas áreas.

 

  • referentes às interacções com a rede eléctrica

- todas as aves frequentaram repetidamente áreas fortemente humanizadas, com presença de redes de distribuição e transporte de energia eléctrica, durante os seus movimentos de dispersão. Até à data apesar de se ter ocorrido a morte de uma das aves e o desaparecimento de mais 2 por causas desconhecidas, tudo aponta que não tenham sido causadas por colisão ou electrocussão em linhas eléctricas.

- análise das relações entre as aves e as linhas carece de uma avaliação detalhada de diversos parâmetros ecológicos inerentes a uma estudo de caracterização do território que apenas agora está a ser iniciado. Para isso será necessário o acesso ao sistema de Informação geográfico sobre linhas eléctricas em posse da EDP.